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Ou nem nos permitimos voar?

  • Foto do escritor: Bibiana U. Goldschmidt
    Bibiana U. Goldschmidt
  • 9 de jun.
  • 3 min de leitura

Reflexões sobre ansiedade em um mundo que raramente pousa na experiência.


Não é como se ela chegasse com um aviso.

Ou batendo à porta, pedindo licença.

Ela aparece em um dia comum (ou nem tão comum assim), enquanto se tenta responder mensagens, organizar a semana ou simplesmente seguir a vida como sempre.

E, sem perceber exatamente quando começou, ela traz uma mudança interna.

O corpo parece estar mais atento.

A respiração encurta um pouco.

A mente acelera à frente do presente.

O coração "erra as batidas".

É uma sensação que muitos reconhecem.

Não é exatamente medo.

É uma espécie de vigilância discreta, contínua.

Como se algo dentro estivesse sempre tentando antecipar o próximo movimento da vida, mesmo quando nada, aparentemente, pede isso.

Talvez seja importante olhar para isso não apenas como algo "interno", mas também como algo que acontece em relação ao mundo em que vivemos.

Um mundo rápido.

Cheio de estímulos.

Onde sempre há algo acontecendo, pedindo resposta, atenção, mas onde a presença, muitas vezes, se torna difícil.

Um mundo onde parar pode, às vezes, parecer estranho.

Ou até "impossível".

E, sem perceber, vamos aprendendo formas de estar sempre um pouco à frente da experiência.

Pensando enquanto algo ainda acontece.

Respondendo antes de sentir por completo.

Organizando antes de realmente pousar.

(Ou nem nos permitindo voar?)

Essa convidada "indesejada", a ansiedade, pode até ser entendida como uma forma de adaptação, se olharmos para a realidade em que vivemos.

Talvez isso também ajude a compreender por que tantas pessoas estão ansiosas hoje, de uma maneira diferente do que se observava em outras gerações.

Não como algo que falha, mas como uma tentativa de acompanhar um ritmo que nem sempre permite pausa.

Como se o corpo e a mente estivessem tentando garantir que nada escapa, que nada fica para trás, que tudo está sob controle.

Mesmo que isso custe descanso.

Mesmo que isso custe a própria experiência.

Quando a vida é vivida nesse estado de antecipação constante, algo vai ficando menos acessível:

o momento presente.

Não porque ele desapareça,

mas porque há pouco espaço interno para habitá-lo.

E então a experiência começa a ser imaginada um pouco à frente de si mesma, em vez de ser plenamente vivida.

A ansiedade não é apenas isso, e tampouco apenas um excesso de pensamentos.

Ela pode ser também um sinal de um corpo e de uma vida tentando acompanhar muitas direções ao mesmo tempo.

Há um momento em que deixar de tentar apenas controlar ou eliminar pode abrir outra possibilidade.

Não para resolver tudo rapidamente.

Mas para começar a perceber como isso se organiza em cada pessoa.

Como isso acontece em mim?

Onde começa?

O que intensifica?

O que alivia?

Na psicoterapia, existe espaço para desacelerar esse movimento.

Um espaço onde não é preciso acompanhar o ritmo do mundo lá fora.

E, aos poucos, pode surgir uma forma mais própria de estar com as coisas, um ritmo que não precisa ser perfeito, apenas mais possível de sustentar.

Talvez a ansiedade não seja apenas algo que "não está bem".

Talvez seja também uma forma de vida tentando responder a um mundo que raramente desacelera.

E, quando há espaço para olhar para isso sem pressa, algo pode começar a se reorganizar, às vezes de forma quase imperceptível, no jeito como a experiência vai sendo vivida.

E também nos questionamentos que surgem a partir daí: como temos vivido? O que estamos tentando acompanhar? E de que forma podemos, individual e coletivamente, encontrar mais espaço para apreciar o voo em meio a tudo isso?


O voo interrompido.
O voo interrompido.

 
 
 

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© 2019 por Bibiana Ughini Goldschmidt

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