Uso Consciente do Smartphone: Um Olhar Gestáltico sobre Prazer e Propósito
- Bibiana U. Goldschmidt

- 21 de fev. de 2025
- 4 min de leitura
Você já parou para pensar por que desbloqueia o celular?
O smartphone se tornou uma extensão do nosso corpo, oferecendo acesso rápido ao prazer e conforto — seja através de redes sociais, vídeos curtos ou compras online. Mas até que ponto essa busca por gratificação imediata realmente nos supre? E o que fazemos quando percebemos que o alívio proporcionado é passageiro?
Neste artigo, exploro reflexões baseadas na minha investigação acadêmica sobre o uso do smartphone nas gerações X, Y e Z sob a ótica da Gestalt-terapia e das orientações por trás dos nossos comportamentos. Vamos entender como o equilíbrio entre prazer e propósito pode transformar nossa relação com o ambiente digital.
Entre o Prazer e o Propósito: As Orientações Hedónicas e Eudaimónicas
Os comportamentos humanos podem ser compreendidos a partir de duas orientações principais: a hedônica e a eudaimônica. A qualidade da nossa relação com o smartphone também pode refletir o equilíbrio (ou a falta dele) entre essas duas necessidades.
Orientação Hedônica: Relacionada à busca por prazer e conforto, é fundamental para o bem-estar emocional e a autorregulação saudável. Momentos de prazer hedónico incluem saborear uma refeição deliciosa, apreciar um pôr do sol, desfrutar de um banho quente, assistir a um filme reconfortante ou passar tempo com pessoas queridas. Essas experiências são vitais para o equilíbrio emocional, pois proporcionam descanso, leveza e conexão com a própria essência e com o ambiente.
⚠️ O risco no contexto digital: A relação com o smartphone pode transformar a orientação hedónica em uma estratégia de coping falhada. Coping refere-se a estratégias utilizadas para lidar com o estresse e emoções difíceis. Um coping falhado ocorre quando essas estratégias não suprem a necessidade real, oferecendo apenas um alívio superficial. Por exemplo, buscar o celular para aliviar tédio ou ansiedade pode gerar um ciclo de insatisfação, pois a necessidade emocional subjacente permanece não atendida.
Orientação Eudaimónica: A orientação eudaimónica refere-se à busca por propósito e significado. Ela envolve atividades que contribuem para o crescimento pessoal, como aprender algo novo, desenvolver um projeto criativo ou nutrir relações profundas. Esse tipo de orientação está diretamente ligado a um uso saudável do smartphone quando, por exemplo, utilizamos aplicativos educativos, participamos de comunidades online que compartilham interesses significativos ou consumimos conteúdos que ampliam nossa visão de mundo.
⚠️ O desafio no contexto digital: O uso do smartphone pode também comprometer a orientação eudaimónica quando o consumo de conteúdo é superficial ou impulsivo, desviando-nos de objetivos mais significativos. Rolar infinitamente o feed de redes sociais pode parecer relaxante, mas, muitas vezes, impede o engajamento em atividades que realmente trariam realização e crescimento pessoal.
Assim, um uso saudável do smartphone envolve reconhecer se estamos utilizando-o para nos distrair de desconfortos imediatos ou para sustentar processos que tragam propósito e significado.
A Gestalt-terapia e o Equilíbrio Digital
A Gestalt-terapia propõe um olhar atento para o aqui e agora, incentivando a awareness (consciência plena) sobre como nos relacionamos com o ambiente e com nossa própria experiência interna. No contexto digital, isso significa estar consciente do porquê e como usamos o smartphone.
📱 Será que recorremos ao celular com maior frequência para evitar o desconforto ou para nos conectar de forma significativa?
Na Gestalt-terapia, a autorregulação é um processo natural em que as necessidades emergem e são atendidas conscientemente. Nesse processo, tanto a orientação hedónica quanto a eudaimónica desempenham papéis fundamentais. A orientação hedónica, quando integrada conscientemente, pode oferecer pausas necessárias e momentos de prazer. Já a orientação eudaimónica sustenta o desenvolvimento pessoal e relacional, guiando escolhas que trazem um senso de propósito.
O verdadeiro equilíbrio digital ocorre quando reconhecemos e regulamos ambas as necessidades, ajustando nosso uso do smartphone para que ele sirva tanto ao prazer momentâneo quanto aos propósitos mais duradouros.
Como Praticar um Uso Mais Consciente do Smartphone?
✅ Reconheça seus padrões: Observe os momentos e os motivos pelos quais pega o celular. É tédio? Ansiedade? Necessidade de conexão?
✅ Estabeleça intenções: Pergunte-se antes de desbloquear o smartphone: "O que estou buscando aqui?" Essa pausa traz clareza.
✅ Pratique o contato genuíno: Em interações presenciais, perceba como o celular interfere na qualidade da relação. Experimente deixá-lo de lado.
✅Desafie-se a suportar o desconforto: Experimente permanecer com sensações desconfortáveis sem recorrer imediatamente ao celular. O que surge?
✅ Crie espaços livres de tecnologia: Reserve momentos do dia para estar desconectado e presente.
✅ Explore prazeres saudáveis e variados: Caminhar ao ar livre, cozinhar, ouvir música ou praticar um hobby podem suprir necessidades emocionais sem padrões negativos de uso digital.
✨ A Gestalt-terapia nos convida a refletir: Como nossas escolhas digitais podem ser mais conscientes e alinhadas com o que realmente traz sentido? Ao desenvolvermos awareness e autorregulação, transformamos o smartphone de uma fonte de distração automática em uma ferramenta para crescimento pessoal e relações autênticas.
📩 E você? Está buscando prazer e/ou propósito ao desbloquear o celular?
Referências:
Goldschmidt, B. U. & Gouveia, M. J. (2024). Entre o prazer e o conforto, e a busca por um propósito: Como a autorregulação afeta o uso do smartphone nas gerações X, Y e Z. Repositório ISPA. Link
Perls, F. S., Hefferline, R. F., & Goodman, P. (1951). Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality.
Latner, J. (1973). The Gestalt Therapy Book: A Holistic Guide to the Theory, Principles, and Techniques of Gestalt Therapy.
Wheeler, G. (1991). Gestalt Reconsidered: A New Approach to Contact and Resistance.




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